quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O Escravo


Faz tempo que navego pelo BDSM, e faz tempo que algumas coisas não me agradam.
E como não estou imune a passar em branco frente aos recém chegados, aqui vai uma pequena contribuição de um assunto em voga.
Atualmente, a internet exibe três tipos de mulheres com acento dominante em seus perfis. As verdadeiras Dommes, as Pro-dommes e as Rainhas.
Não sou eu quem criou essa nomenclatura, isso está nos perfis pra quem quiser ver.
E não raramente deparo com postagens em redes sociais em que algumas moças escrevem coisas do tipo: “necessito de um escravo motorista”. Apenas pra citar um exemplo.
Ora, nos comentários sempre aos borbotões, dezenas de pseudos escravos se habilitam a tal tarefa. Uns lamentam por morarem distante, outros alegam compromissos e outros pedem para marcar a hora.
Claro que ninguém vai aparecer pra isso. Porque essa moça não quer um Escravo, ela quer um Esparro. E aqui residem as diferenças básicas, gritantes e fundamentais.
Porque esta moça, que pode alegar ser uma pro-domme ou apenas uma dessas Rainhas de Podos que está em voga nos diversos grupos espalhados na rede, não tem a menor idéia do que significa ter um escravo. E se vale uma leitura atenta pode ser que essas palavras façam sentido, ou podem me chamar de idiota mesmo, porque eu não ligo. Ando evacuando um quilo exato pra esse tipo de mi-mi-mi.
Um sujeito que se presta a ir fazer um favor a alguém que escreve uma postagem desse tom na certa estará imaginando ter algo em troca pelo ato. E se tal fato realmente se confirmar será uma relação pro-domme de momento, com um valor estabelecido, ainda que não seja dinheiro, grana, cacau, mas uma pisada, um beijo no pé etc. Mas se nada rolar ele será um “esparro” por um dia.
Digo isso amparado em experiências de vida. Não tem nenhuma teoria de “chutágoras” aqui.
Uma relação “Master/Slave” denota muito mais que uma tarefa de levar uma moça a um shopping, ou a compra de um par de sapatos enviado pelos correios. Se fosse assim, estaríamos diante de um reducionismo absoluto do se resolveu chamar de BDSM.
Toda a responsabilidade que compreende a lisura do relacionamento de uma domme e seu escravo está muito além de uma dessas muitas conversas tolas que assisto todos os dias passando por minha timeline.
Uma verdadeira domme pode ter cinco escravos pendurados em sua corrente, desde que saiba ter atitude e conhecimento de causa para atender as responsabilidades que isto exige.
Então, se a onda é descolar um par de sapatos, uma lingerie, uma “carona” até o shopping mais próximo, ou distante, não use palavras das quais não tem o menor embasamento para proferir.
Fetichismo é muito bem vindo. Muita gente gosta de pés, pescoço, xereca fedida, o que for. Mas fetichismo não tem nada a ver com BDSM, com relação D/S. Fetichismo é fetichismo e pronto moças.
Seus pés podem ser lindos, seu sucesso incontestável. Eu mesmo curto muitas.
As fotos dos seus cabelos são magníficas, a bunda de parar uma partida de futebol. Você pode ser a gostosa da hora, a musa que deu certo. Pode ter um séquito de podólatras escrevendo palavras que te massageiem o ego, mas ser uma domme, uma rainha, ou até uma pro-domme exige muito mais que todos esses predicados relacionados aqui.
Ainda que o cidadão imbuído de sua autodeterminação alegue que ser um “esparro” é uma tarefa de humilhação condizente com os desejos de um escravo eu rebato, veementemente.
Porque para se humilhar diante de uma Senhora o cavalheiro disposto a tanto tem que pertencer a esta Mulher, de corpo e alma, não através de um avatar com foto falsa de uma rede social pautada pelo anonimato.
Fica a dica!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Cordas e DiD

“Difícil é expressar por gestos e atitudes, o que realmente queremos dizer...” (Carlos Drummond de Andrade)

Desde muito jovem a minha veia pulsou vendo a mocinha em perigo nas telas de TV. Era um vilão típico, ousado, mas tudo isso acontecia nos sonhos de moleque. Era o mar que batia com força no imenso litoral.
Mas esse sonho cresceu comigo e essa historinha bem mais tarde chegou com muita força e atende pelo nome de DiD.
E o que seria DiD? Damsels in Distress. Assim os intrépidos americanos descobriram guiados por um cara de mente aberta e sagaz chamado Irwing Klaw que recortar fotos de gibis com heroínas seqüestradas dava uma grana. E então nasceu a lenda e assim construí meu sonho.
E o que bondage tem a ver com isso?
Evidente que essas mocinhas dos filmes apareciam em perigo, e, uma vez seqüestradas elas se mostravam amarradas nas telas. Daí vem à intuição. Afinal, como fazer uma imobilização segura em que a sua donzela em perigo permaneça prisioneira?
Criou-se um estilo, o chamado por muita gente de bondage americano.
Aqui me dedico a falar desse estilo. As técnicas e teorias orientais seriam outro caso.
E este bondage americano acompanhou a evolução reaparecendo no começo dos anos sessenta após a morte de Irwing Klaw e a extinção do processo que lhe moveu o governo por violação de correspondência em tempos de guerra fria. Nesse período, os recém-chegados criaram as primeiras revistas especializadas no assunto, as famosas Detectives Magazines.
Mas toda essa retórica tem um sentido: até que ponto a simetria dos nós e o bom acabamento de uma imobilização atrai os aficionados por DiD? Seria uma clara influencia das imobilizações orientais que primam pela beleza dos nós interferindo no que foi retratado pelo cinema norte-americano?
É evidente que a beleza de uma imobilização atrai olhares curiosos e atentos. As pessoas curtem as fotografias de centenas de produtores e artistas de acordo com essa identificação entre a imagem e o espectador. Muitas mulheres com claras tendências a serem dominadas anseiam por uma cena de bondage realizada com esmero, precisão cirúrgica e, com isso, suas fotos teriam a plasticidade esperada.
Eu assumo essa tendência em meu próprio portal.
Mas os milhares de amantes de DiD espalhados pelo mundo afora estariam interessados nessa precisão?
Numa recente pesquisa realizada por portais especializados no assunto ficou claro que um grande percentual de admiradores de bondage de certa forma não prioriza esse critério. Imobilizações realizadas com duct tape – ou silver tape, como preferem alguns, apesar de nem sempre serem de cor cinza as fitas adesivas – ou algemas, têm um mesmo apelo, porque numa cena de DiD a participação da modelo e de quem a dirige em cena é responsável pela eficácia do trabalho no portal.

Portanto, acho muito bacana realizar um trabalho e ler elogios quanto ao aproveitamento das cordas de forma simétrica e perfeita dentro de uma cena, mas existem outras formas de mostrar o DiD em que as cordas ficam em segundo plano. E há que atender a demanda quando se trata de um trabalho com fins comerciais.
O artigo tem como premissa explicar aos que não possuem esse conhecimento as razões das diversidades que podem ser vistas no Fetlife ou outras redes sociais.
No Brasil a preferência pelo fetiche chamado de DiD é muito pequena, o que explica a pouca penetração do portal por aqui. No entanto, em países como Estados Unidos e boa parte da

Europa a procura é muito grande e a assiduidade bastante significativa de assinantes que bsucam o segmento.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Os Efeitos do Nylon


Meias de nylon…
Um fetiche, um objeto de desejo extremo, de sedução ou elegância?
Um acessório que é idolatrado por podólatras, bondagistas, sadomasoquistas, enfim, alcança vários segmentos de todas as formas possíveis e imaginárias.
Como os amantes dos pés lidam com o nylon? Alguns adeptos do sweat foot fetish (experimente digitar essas palavras no Google), enlouquecem quando as meias de nylon atuam retendo o suor nos pés das meninas. O efeito para esse grupo é bombástico. Quanto mais molhados os pés maior o tesão. Mas há casos de podólatras que gostam da beleza que as meias de nylon produzem quando apresentam combinações com os calçados. Estes ignoram os efeitos do suor e do cheiro e se esbaldam com a imagem sedutora da mulher.
Outra combinação interessante diz respeito à bondage e nylon.
Parte desses fetichistas é alucinada por mulher amarrada trajando meias de nylon. A viagem vai desde lingeries tipo sete oitavos a meia calça. Existem sites especializados nos quais a imagem de uma mulher descalça ou sem as meias é quase impossível, mesmo que inseridas num contexto de mais de quinze mil fotografias.
Claro que existe uma ligação intensa entre o fetiche de bondage e podolatria. É inegável essa proximidade, e porque não dizer, parentesco. O tesão por mulheres amarradas com meias de nylon vai desde a utilização das meias como ligadura, ou seja, como elemento imobilizador, até imagens onde as meninas aparecem apenas trajando as meias. Nem calcinhas são permitidas.
Daí o “ritual” segue de acordo com a imaginação de cada fetichista. Uns optam por fitas adesivas, outros por cordas, tiras de couro, enfim, tudo que possa criar uma imagem que dê vida as meias cor de pele. Assim como os podólatras, alguns bondagistas colecionam as meias de nylon utilizadas durante uma cena.
Mas não pára por aí.
Esse objeto de desejo de fetichistas também faz parte de sessões de sadomasoquismo. Não é difícil conseguir imagens de mulheres sendo flageladas com as meias de nylon rasgadas durante cenas em calabouços ou masmorras.
Normalmente, nestes casos, o interessante é conseguir acabar com a elegância da mulher aos poucos, despindo à força, peça por peça, até que sobrem apenas as meias de nylon semi destruídas.
Em sites de sadomasoquismo é comum a associação das meias de nylon com cordas de sisal. A união desses materiais se encarrega de causar o impacto que a cena necessita. As meias vão se deteriorando aos poucos até serem rasgadas com violência pelos praticantes.
Não podem ser ignorados os sites especializados em exibir mulheres colocando e retirando essas meias e lingeries. Há vários, alguns com cenas de bondage também, mas o foco central é por este material sintético.
Como dizem por aí, a mulher já nasce sabendo seduzir um marmanjo.
Tanto é verdade que as que sequer se imaginam fetichistas, utilizam lingeries para encantar seus pares. Flertam com o fetiche sem admitir qualquer proximidade. Coisas da vida...
Os efeitos do nylon em atividades fetichistas ou até baunilhas são intensos.

O prazer obtido com estes objetos enquanto estimulantes sexuais por determinado grupo de pessoas é muito grande, o que faz com que a matéria seja relevante.
Ainda que podólatras, bondagistas e sadomasoquistas tenham preferência por pés descalços um belo par de meias provocantes é sempre um fator interessante e sedutor.
Sobram questionamentos: você, amiga e freqüentadora desse espaço, em algum momento admitiria usar meias de nylon para provocar suor em seus pés a pedido de seu parceiro?

Com a palavra, as moças.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Química

 
Muita gente usa a química pra definir com propriedade alguns fatos da vida.
Relacionamentos são balizados pela suposta química entre os que se aventuram ao primeiro encontro às escuras. Transportado ao fetichismo a química é fator preponderante.
Fetiche sem química se resume a imagens repetitivas e comuns.
Atos inanimados de um teatro sem palco e sem atores. Flertar é positivo, cria identificação entre quem deseja o objeto na vitrine, mas sem o toque, o detalhe, naufraga sem rumo ou direção.
Intimidade é algo que as fotografias não revelam. Ajuda, é claro, apaga um pouco a inibição de quem atende ao chamado de quem postou a beleza esperada num lugar qualquer. Mas o toque, a proximidade, são fatores que a tecnologia jamais suplantará.
Então o sujeito gosta de pés. Admira as moças exibindo seus dotes e se esbalda salvando as fotografias que colhe de sua musa preferida. Se imagina presente, sonha, deseja. Mas não há alquimia que transforme o desejo platônico em realidade sem a participação dos dois pólos.
Nesse caso, o admirador padece diante da impossibilidade e sonha um dia tocar, beijar, sentir, cheirar e ter pra ele o que almeja.
Todas as fantasias têm uma origem. Não acontecem por acaso. Algumas vezes o desejo surge do nada e o fetichista, apaixonado e dependente aprende a criar espaço em sua vida pra conviver com dramas que terá de ultrapassar. Ser diferente parece abstrato, mas a realidade é complicada quando você se sente em distorção com o mundo ao redor.
Daí, ao encontrar quem comungue da mesma mesa e ache seu desejo legitimo a entrega é imediata. Porque sempre vai existir quem ache o fetichismo do parceiro saudável e interessante. Não pense que o mundo é só desarmonia. Há uma luz no fim do túnel.
Conheço pessoas que experimentaram fantasias e se encontraram de tal forma a ponto de construir seus castelos nesse alicerce. A vida é um encontro de possibilidades capaz de exercer esse fascínio em quem se atreve a perceber a novidade.
Portanto, se de um lado alguém se nega a tentar explorar atalhos de outro haverá quem tente através do inesperado achar a química perfeita.
Costumo dizer que no fetichismo não há espasmos e delírios fictícios. Claro que existem formas diferentes que ver o fetiche. Há os que admitem o fetiche sem rosto, sem identidade, e aqueles em que sentimento e desejo precisam andar de mãos dadas pra surtir efeito. Portanto, a química é distinta. E se há diferenças ela jamais será uma só.
É importante analisar por este aspecto uma vez que as pessoas têm por bem estipular que a química é um fator comum. Tesão é algo inexplicável, transcende os desígnios da razão. Dessa forma, a química seria pessoal e intransferível, aceitável em alguns casos, desde que a fantasia não extrapole os limites de quem se arrisca a experimentar algo muito novo.
Claro que a paquera sempre será o embrião de uma relação e sabendo dos desejos de quem se conhece fica mais fácil imaginar como mexer com o âmago de quem flerta do outro lado.
 
Alguns fetichistas deixam a timidez se embrenhar em meio a expor seus desejos, mas se ele souber trabalhar esse lado as chances de conseguir seu objetivo serão infinitamente maiores e, talvez, possa galgar parceria de onde ele menos espera.
Porque no fundo, todos querem ser o objeto do desejo de alguém. É fato.
Ainda que esse desejo se materialize por estar em perigo numa cena de seqüestro lúdico e combinado, acorrentada numa fictícia masmorra ou apenas ter seus pés endeusados por quem os observa sem o menor pudor.
Toda fantasia é válida desde que não violente sentimentos ou cause problemas em quem se dispõe a praticar.
Resumindo, a química está nesse conjunto de fatores quando se fala em fetichismo, uma necessidade extrema e totalmente relevante de estar diante do que tanto fascina.
 
O artigo de hoje é em homenagem a dona da fotografia acima que ilustra a matéria. (Maria Carolina) 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O Mau Defunto


Rede Social e Internet foram duas coisas que deram certo.
Até certo ponto sim. O tal casamento perfeito. Um nasceu pra completar o outro.
E a vida corria bem até o aparecimento de possibilidades até então restritas a ambientes distintos. Foi então que alguém descobriu que BDSM cairia como uma luva nesse segmento, desde os tempos do velho e defenestrado ORKUT.
O Facebook é uma ferramenta com restrições. E isso emputece a maioria que deseja fazer do portal um valhacouto para suas barbaridades. E que barbaridades seriam essa? Expor seus desejos numa vitrine e achar que eles são a única forma de expressão de BDSM que existe na face da terra.
E assim foi, até que um dia algumas pessoas encontraram uma página negra, bem mais atraente que uma rede social que os amigos mais próximos utilizam, chamada de Fetlife. As imensas combinações e possibilidades foram à senha de entrada. O paraíso, enfim, deu o ar de sua graça. Mas não era suficiente ser apenas parte de um todo, era preciso seguir na obstinação obtusa e sem nexo de que a opinião pessoal era o único e verdadeiro caminho, igualzinho aos pastores ordenhando seus fiéis seguidores num púlpito bem refrigerado.
E vieram os textos, as verdades que se tinha em mente.
Grupos, semi-grupos, panelinha, sei lá, o nome é o que menos importa, desde que naquele gueto a verdade dita talvez em letras garrafais no anúncio seja o único caminho.
E toda aquela velha retórica de que cada um que cuide do seu, ou cada cachorro que lamba a sua caceta vai literalmente para o espaço. Porque quem aparece normalmente não quer ter uma opinião contrária, ou se acaso tenha e se expresse, vai virar vespeiro de agulha de tanta espetada que aparecerá dos defensores de Noé e seus bichos.
E a vida segue de vento em popa enquanto o exercício de fazer valer a verdade absoluta e falar mal da vida de quem discorda se equivalem. “Aqui é meu clube, quem está desse lado da linha pode jogar e quem não está que procure sua turma”.
E tome veneno...
É o cara que trai a mulher com a masoquista do sul, a dominadora que pega o ônibus por conta própria porque o submisso se nega a lhe pagar avião quando deveria, e assim sucessivamente. Ao tempo em que outros se juntam e de tanta concordância aquilo vira um mantra celestial e todos que por ali passam despercebidos acabam acreditando em todas aquelas tolices.
Sim, tolices. Porque BDSM nunca foi uma causa.
Porque BDSM sempre foi uma forma de viver e, num país democrático, se vive da maneira que se acha conveniente. Daí se fulano é Goreano, beltrano é litúrgico e cicrano é anarquista é um problema pessoal de cada um. A pessoa tem o livre arbítrio de se expressar e dizer a que vem.
Ser casado, solteiro, gay, hetero, crente, macumbeiro, nada disso vem ao caso. E isso eu não aprendi em cursos ou palestras. Isso veio na cartilha de quem um dia deu a cara a tapa pra criar alguma coisa que hoje se denomina BDSM num lugar onde escrevemos português.
Então eu não tenho verdades, nem grupos, e, muito menos alicio pessoas pra acreditarem no que escrevo. Me expresso e só. Se alguém não concordar que discorde. Debate sempre foi à mola que impulsionou o BDSM do lado de cá dos trilhos, desde os tempos em que apenas uma meia dúzia de pessoas pensou em dias melhores.

Por conta disso eu paro, olho e leio. Se me agrada eu sigo, se não me agrada eu apenas levo minha vida. E não acendo vela pra mau defunto.
Um dia, quem sabe, criar-se-á um grupo chamado DIVA (Departamento de Informações da Vida Alheia) e eu vou aplaudir, porque ao menos não estará camuflado debaixo da empáfia de quem se autodenomina síndico de uma nova sociedade emergente do BDSM dentro das redes sociais.
E se isto de fato acontecer, quem quiser que dê asas à loucura, eu, por minha parte, economizo as minhas velas...

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A Vida, O Fetiche e a Moça


Nasci sob o signo de gêmeos, num Domingo de lua cheia dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo de cinqüenta e oito.
Claro que não me lembro quando abri os olhos, mas dentre as lembranças que trago da infância uma delas me remonta à primeira cena fetichista. E olha que estou no lucro já tendo cruzado a barreira da metade de um século.
Só agradeço não terem me levado na primeira rezadeira da esquina para tirar os demônios de dentro de mim, porque ninguém imagina um menino adorar os vilões e vibrar com eles em todas as cenas que me deixavam com os olhos vidrados.
Lembro vagamente de um dia com um cinto amarrar os braços da empregada de casa, Marly, imitando as cenas em que os índios amarravam as mocinhas nas séries em preto e branco da TV. E foi aí brother que tudo começou.
Portanto, o fetiche vem do útero jamais do berço e está dentro de nós desde que respiramos o primeiro sopro de ar poluído desse planeta.
Vieram os sonhos, delírios, até a adolescência quando já cansado das brincadeiras infantis de policia e ladrão, quando era inevitável tirar umas casquinhas das coleguinhas aprisionadas, é possível começar a articular idéias e por em prática os tais “pensamentos obscenos” que a ordem político-religiosa nos impõe.
As coisas começaram a ficar mais sérias e geralmente terminavam em gloriosas trepadas solitárias durante o banho onde era possível comer toda e qualquer garota bem amarrada, e detalhe, sem pedir nenhuma permissão para isso.
Nascem então às primeiras experiências de bondage através das gostosas brincadeiras a dois. Assim como bondage, qualquer outro fetiche segue a mesma regra tendo como ponto de partida e as primeiras ebulições esses contatos infanto-juvenis.
Por isso moça, podem sim existir fantasias de bondage sem necessariamente haver coito sexual, e claro, o aprimoramento dessas cenas que montamos como um grande teatro entre quatro paredes, vem com o tempo, passando pelos tabus da virgindade até a utilização de pequenos aparelhinhos estimulantes.
E como tirar proveito e prazer desses pequenos espasmos de fantasia?
Elementar minha cara, porque uma pequena gota de prazer para um fetichista é como time pequeno empatar com um grande, ou seja, festa na cidade e cerveja liberada.
Só existe a possibilidade de alcançar experiência se houver um desenvolvimento adequado e as barreiras forem rompidas em seu devido tempo, com confiança e astúcia. E isso é regra básica para evoluir, sem ansiedade, porque doses homeopáticas sempre foi um excelente remédio. Quem quer tudo ao mesmo tempo, quer abraçar o mundo com as pernas, acaba se perdendo num universo tão grande onde o conhecimento de cada passo se obtém com o tempo, e nada mais.
É preciso ter a noção que nascer com o fetiche na veia nos faz aproximar dessa atmosfera, mas se não houver conhecimento do terreno o qual se pisa, vira areia movediça, fácil de afundar.
Para começar toda e qualquer experiência de bondage em primeiro lugar há que existir confiança total a quem você está se submetendo, porque uma vez imobilizada a chance de dar merda é muito grande. Depois das primeiras sessões será plenamente possível perceber até onde caminhar e por qual lado seguir; carícias e estímulos, um pouco de podo, castigo com cordas, submissão, e tantos outros que vão aflorar na medida em que o rio siga seu curso sem nenhuma queda brusca que te faça afastar de um destino que você tanto deseja seguir.

O fetiche pode chegar antes do envolvimento sexual, sempre, desde que haja comprometimento consensual para que isso seja respeitado.
Nem sempre encontramos o fetiche ainda na infância, às vezes até o renegamos e nos sentimos como estranhos no ninho, mas um dia de tanto insistir ele aparece com força e nos toma de assalto, e é nessas horas que precisamos estar preparados para começar essa viagem maravilhosa.